Manifesto anti Eduardo Sá e Isabel Stilwell que acham que a minha geração devem ser metida na linha.

Nem de propósito! A respeito da nossa última publicação sobre estágios, eis que estas duas ilustres personagens se vieram pronunciar sobre o tão badalado caso da Danone que ofereceu um estágio a troco de iogurtes.

Poderão ler a notícia que li na integra aqui, mas por alto retiramos da participação deles no programa “Dias do Avesso”, na Antena 1 dia 20 de Março, entre dizeres que a nossa geração sofre de não ter sido metida na linha, o seguinte:

Os intérpretes desta rubrica da rádio pública acham que criticar os estágios não remunerados é uma “atitude arrogante” por parte de jovens cujo problema é que “os pais e a escola ainda não os puseram no lugar”

Eduardo Sá acusa os jovens de falta de humildade e de pertencerem a uma geração que “imagina ter um valor facial muito mais significativa do que aquilo que de facto vale” (…) acha que as pessoas devem “esfolar os joelhos” para ter direito a trabalhar.

Isabel Stilwell prefere queixar-se que esta operação desenhada pelas grandes empresas lhes “dá imenso trabalho”.

A conversa é uma vertiginosa defesa da precariedade e da submissão de quem trabalha. A acusação de falta de humildade esbarra, além do mais, no preconceito e na arrogância.

Aos caros Eduardo Sá e Isabel Stilwell,

Nós, à semelhança e imagem de gerações anteriores num país que sempre se dignou a trabalhar para conquistar o pedaço, não nos achamos no dever de esfolar joelhos nenhuns. Quem trabalha de joelhos são as prostitutas e fartos de ver o nosso trabalho qualificado ser prostituído já estamos nós.

É obvio que eles pensam dessa maneira. Eles são da geração que actualmente é, maioritariamente, empregadora. Pensam da mesma maneira que todos os da sua idade (quarentas) que são as idades dos cargos de direcçao.

Se houve uma geração que não foi metida na linha foi a deles, precisamente porque nunca existiu a necessidade de se estabelecer uma linha até aos dias de hoje. Foram esticando a corda até que nós temos de estabelecer a nossa propria linha e impor-nos com um conceito tão simples como “se querem que trabalhemos, paguem-nos”. Dizer-lhes isto na cara a elels, que têm idade para ser nossos pais, é uma afronta. Sentem-se humilhados e é como um filho virar-se ao pai. Mas estou-me a marimbar, eles é que são a geração em que ter uma licenciatura era sinonimo de emprego e ainda um presunto ao fim do mês. Eles é que são a geração que se auto-initulava de “Dr. Eduardo”, “Eng. Pedro”, quando lhes perguntavam o nome. As geraçoes nascidas em 80/90 já não se têm em tao grande conta, já nenhum de nós se dá a esses snobismos. Eles é que são a geração que nunca criou nada e herdou as empresas dos papás que, esses sim, lutaram para as criar das decadas de 70 e sao as que ainda vao sobrevivendo. Eles são a geração dos “serviços”, os conatibilistas, os comerciais, os agentes de seguros, que abriam um qualquer balcão nos anos 80 e viam dinheiro porque tudo dava. Eles é que nunca se tiveram que mexer, as gerações de emigração foram da década de 60 e agora a nossa, os 40 anos pelo meio (que é a idade deles) foi a geração mais comodista do seculo XX. Eles é que nos criaram à imagem deles, a fazer-nos acreditar que tudo ia ser fácil como foi pra eles.

Eles é que endividaram o nosso país.

Eles é que estoiraram os bancos com créditos.

Eles é que compraram carros para nós mal tirámos a carta.

Eles é que deram tudo os filhos para mostrar ao vizinho o quão bons papás eram.

Eles é que faliram empresas.

Eles é que meteram a economia neste estado e arranjaram soluções fáceis, como sempre fizeram com tudo na vida, como convidar um trabalhador a custo zero rotulando-o com a palavra moderna de “estágio”.

Portanto, não me venham dizer que a minha geração está mal habituada quando somos apenas o produto resultante da vossa. Se os meus pais não me meteram na linha ao incutir-me valores como “um estágio de graça é bom para ti” foi porque na inocente cabeça dos meus pais nunca lhes passou pelo pensamento que um dia, depois de estudar, eu ia ter que me sujeitar a isso.

Don

DiasDoAvesso

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